Fixações no tempo: Fragmentos de um lugar que não existe

“Em nossa civilização que põe a mesma luz em toda parte,

(…) já não se vai ao porão de vela na mão” G. Bachelar

O conjunto da obra de Lilian Camelli nos insere em uma realidade perturbadora, nos conduz aos porões de nossa existência, àquele território onde as emoções boas ou não ficam armazenadas, registradas ao longo da vida e que muitas vezes preferiríamos não entrar em contato. Em seu universo iconográfico, destacam-se figuras femininas em situações cotidianas que, no contexto das composições em tons de cinza, evidenciam o tédio e o conformismo diante da vida. Existe uma atmosfera melancólica, intrigante que nos remete a um acontecimento inevitável e comum a todo ser vivo: a morte. Um silêncio imediatamente se manifesta quando percebemos o foco central de sua poética. Ali não estão representadas meramente situações vivenciadas pela artista, mas um emaranhado de percepções que se sobrepõe e criam, muitas vezes, uma realidade fantástica, misteriosa, ao estilo de Gabriel Garcia Marques. Há uma rotina que acaba por matar, roubar a “anima” de suas jovens mulheres, enfatizada pela circularidade na composição de alguns trabalhos. Há um desalento, um sentimento de solidão e desamparado diante do inevitável. Dessa forma sua pintura é impregnada de mensagens simbólicas, um convite à reflexão sobre o universo feminino que nos faz lembrar a obra de Frida Khalo. É como se o tempo todo Camelli nos falasse da impermanência e da fragilidade humanas diante da morte, bem como do mistério que a envolve. Há um caráter intimista em sua poética que é reforçada pelos pequenos formatos de seus trabalhos. São fragmentos de uma história que se inicia nos primórdios da existência humana que remetem aos arquétipos femininos e que vão sendo trazidos à luz em cada pintura. Nota-se um grande potencial criativo da artista em início de carreira que certamente, ganhará apuro técnico e expressivo no decorrer de sua trajetória.

Andréia Reis

Artista plástica e arte-educadora formada pelo Centro Universitário

Belas Artes e pelo SENAC-RJ em especialização em Artes Visuais

 © 2018 by Lilian Camelli

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